OBRA ARTÍSTICA

Depoimento de Eduardo de Paula

Meu primeiro trabalho remunerado foi um desenho para a revista infantil Era Uma Vez, editada em Belo Horizonte. Devia estar com uns 16 anos de idade. A publicação fora fundada em Belo Horizonte, em 1940, por Vicente Guimarães – o vovô Felício –, tio do escritor Guimarães Rosa. Lembro-me como se fosse hoje que, ansioso por ver meu trabalho impresso, no dia aprazado para circular a revista plantei-me cedo no ponto de venda. A banca de revistas situava-se na av. Amazonas – junto à praça 7 de Setembro –, na lateral da papelaria Rex.

Post - Ed por WildeNos primeiros momentos da minha caminhada, dividi dúvidas e aprendizados com o amigo e companheiro Hélcio Mário Noguchi, que tornou-se um ícone da criação publicitária brasileira. Devo a ele meu primeiro emprego, aos 17 anos de idade, quando fui trabalhar na Publicidade Danilo Valle, como ilustrador e cartazista. Ali, aprendi os rudimentos do desenho publicitário e tive despertado o interesse pela arte de desenhar letras e pela tipologia. Nessa empresa, produzi incontáveis cartazes para slides do Cine Grátis.

← Eduardo de Paula pintado por Wilde Lacerda, nos tempos de escola Guignard (1959).

Entre os anos de 1949 e 1960, o Cine Grátis foi uma das melhores diversões noturnas da população de Belo Horizonte. Um equipamento de projeção, montado sobre um caminhão, se deslocava para diversos espaços públicos, onde eram oferecidas sessões de cinema. A iluminação dos logradouros era tapada com sacos pretos, a guarda-civil dava segurança aos espectadores, alguns deles assistiam de pé, outros sentados no chão e os mais exigentes levavam um banquinho de casa.

O faturamento provinha de slides coloridos que eram exibidos nos intervalos. Milhares de pessoas viram minha “arte” naqueles cartazes projetados nas telas de cinema. Se em algum detalhe não me falha a memória, lembro-me de tê-los feito para vender fogões da marca Gardini, material esportivo das lojas Ranieri e guaraná Gato Preto.

Post - Cine & Revista

Caminhão do Cine Grátis e revista Era Uma Vez.

Pude substituir Noguchi, na agência de publicidade, porque ele foi trabalhar na muito conhecida revista Alterosa. Contudo, decorrido pouco tempo, o amigo deixou a empresa e indicou-me para o seu lugar, com as mesmas funções. Na Alterosa, de 1955 a 1960, aprendi e progredi, como diagramador e ilustrador.

Num determinado momento, em 1957, Wilma Martins, aluna da escolinha de Guignard, chegou para trabalhar na Alterosa, como desenhista, e fizemos amizade. Durante nossas conversas, surgiu a motivação de também fazer o curso que ela frequentava. Foi então que decidi procurar a Escola de Belas-Artes de Belo Horizonte – o nome oficial –, no mesmo ano de 1957.

A escolinha ocupava as ruínas do Palácio das Artes, cuja construção fora paralisada. Lá cheguei logo após ter sido invadida e depredada pela polícia civil, quando desalojaram um brilhante professor para, no lugar, instalar uma delegacia. Seu nome: Franz Weissmann, escultor. Com isso, o renomado artista se revoltou, abandonando Belo Horizonte e seus alunos.

Post - Escolinha _ entrada & escultura

Ruína do Palácio das Artes / Primeira foto: As três janelas gradeadas pertenciam à delegacia e cadeia. Na escadaria se fazia o acesso ao segundo andar da escolinha de Guignard; no primeiro andar funcionava a sala de escultura, que se alagava no tempo de chuva. Segunda foto: Sala de escultura. (Fotos: Eugênio Silva, revista “O Cruzeiro”)

Na metade do espaço remanescente, após a invasão, continuou funcionando o curso dirigido ao aprendizado de desenho, xilogravura, pintura e escultura. O espaço físico era então compartilhado com a delegacia policial, onde havia celas para prisioneiros e apenas uma parede como divisória. Nossa convivência com os detidos era em alto nível. Trocávamos cumprimentos e, às vezes, através das grades, lhes fazíamos algum agrado.

Quando lá cheguei, contava uns 20 anos de idade e tive a sorte de ser recepcionado por Guignard. Lembro-me do nosso primeiro contato. O renomado pintor trajava terno de linho branco, impecavelmente limpo e bem engomado. De pronto, acolheu-me com sorrisos e amabilidades. A primeira, foi ao oferecer-me um tamborete para sentar, mas que denotava estar sujo de tinta. Ao perceber isso, meu anfitrião tomou um pedaço de pano, mais sujo ainda, e esfregou-o sobre o assento com a intenção de fazer uma limpeza. É claro, e não podia ser diferente, conseguiu apenas lambuzar mais a superfície.

Post ObjetoDiante de tanta gentileza, nem pestanejei e acomodei-me no tamborete. Mas prosseguimos e, sem conseguir disfarçar meu constrangimento diante de pessoa tão importante, fui arrebatado pelas palavras que ouvi do mestre. Seja lá como for, tanto pelas boas-vindas quanto pelos posteriores contatos, em grande parte devo a Guignard a escolha desse prazeroso caminho que trilhei.

← Um objeto, por Eduardo de Paula.

Imediatamente à formalização da minha matrícula, perante o secretário e aluno Gavino Mudado Filho, passei a frequentar as aulas. Àqueles com quem fui aprendendo prefiro chamá-los instrutores. Digo isso, porque lá tudo era muito informal e sem rigidez. Até com os colegas mais antigos fui adquirindo conhecimentos e descobrindo caminhos. Aprendi muito com Maria Helena Andrés, Jefferson Lodi, Yara Tupinambá, Wilde Lacerda, Gavino Mudado Filho e Vicente de Abreu.

Tive como colegas Wilma Martins, Jarbas Juarez, Álvaro Apocalypse, Chanina Szejnbejn e muitos outros. Deles, o mais próximo foi Jarbas Juarez, a quem logo encaminhei para trabalhar na revista Alterosa. Quando o conheci, sofria como funcionário da contabilidade do banco Mercantil, pois exercia atividade completamente adversa ao seu temperamento e vocação. Foram convivências calorosas e não me esqueço dos que já se foram. — Eduardo de Paula

Minha trajetória – Pintor e artista gráfico

O gosto pela geometria e pela forma pura levaram-me a trilhar os caminhos da pintura não-figurativa e do desenho gráfico. No meu entendimento, a forma não precisa, necessariamente, significar ou simbolizar qualquer elemento visível ou tangível. Desse modo, linhas, planos, volumes e cores são suficientes para representar o que brota do espírito. Contudo, essa subversão da linguagem figurativa não deve significar distanciamento do humano e das coisas palpáveis, porque é sabido que a geometria está presente em toda a natureza.

Minha formação em artes plásticas teve início, efetivamente, ao frequentar a escola de belas-artes de mestre Guignard. Lá, sem demora, cometi aventuras experimentais inspiradas na arte de vanguarda que efervecia no Brasil, nos anos de 1950/60, especialmente o neo-concretismo. Entretanto, naquele afã de encontrar uma expressão pessoal, foquei meu trabalho principalmente na pintura sobre tela e objetos.

Post - Pint 13

21º Salão Municipal de Belas-Artes (1966): Adquirido pela UFMG.

Na UFMG, fui professor de desenho, pintura, desenho gráfico e cor, atuando tanto na graduação, quanto na extensão. Também exerci funções administrativas, participei de conselhos superiores, de inúmeras bancas examinadoras e júris, enfim, envolvi-me amplamente na vida acadêmica durante mais de duas décadas e meia. Por promoções e concurso atingi a classe de professor adjunto IV.

Paralelamente, mantive como artista plástico permanente atividade, fazendo exposições individuais e coletivas, como também participando de concursos. Foram estas minhas principais premiações:

20º Salão Municipal de Belas-Artes (Belo Horizonte): 2º Prêmio em Pintura (1965) // 3º Salão de Arte Moderna do Distrito Federal: Referência Especial do Júri, em Pintura (1966) // 21º Salão Municipal de Belas-Artes (Belo Horizonte): Grande Prêmio de Viagem aos Estados Unidos, em Pintura (1966) // 21º Salão Municipal de Belas-Artes (Belo Horizonte): Prêmio Hotel Del Rey, em Pintura (1966) // 9ª Bienal de São Paulo: Prêmio Hidrominas (Melhor Artista Mineiro), em Pintura (1966) // 23º Salão Municipal de Belas-Artes (Belo Horizonte): 1º Prêmio em Pintura (1968).

Post - pint 12

21º Salão Municipal de Belas-Artes (1966): Grande prêmio de viagem aos Estados Unidos.

(*) UFMG − Universidade Federal de Minas Gerais.

Minhas técnicas – Minha pintura

Quando era ainda um iniciante, numa época em que se valorizava sobremaneira as técnicas tradicionais da pintura a óleo, fiz várias experimentações em busca do novo. Num certo momento, tive a oportunidade de conhecer as tintas acrílicas, que haviam surgido no Brasil, mas que não podiam ser usadas da mesma maneira que a tinta a óleo. Investiguei o material e obtive resultados muito satisfatórios, que não deixavam nada a dever à melhor técnica do óleo. Ressalte-se que, até hoje, a técnica de acrílica permanece desafiadora e enganosa para os iniciantes.

Embora minha pintura aparente ser executada com o auxílio de instrumentos como régua, compasso e curvas, faço a aplicação das tintas completamente à mão livre, usando apenas pincéis macios e redondos, sem uso de pincéis chatos ou mesmo aerógrafo.

Post pint 1

Técnica: tinta acrílica.Tamanho: 80 x 80 cm

Post pint 2

Técnica: tinta acrílica sobre tela.Tamanho: 80 x 80 cm

Post pint 3

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 80 x 80 cm

Post pint 4

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 80 x 60 cm

Post pint 11

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 36 x 28 cm            Técnica: tinta acrílica s/tela. 25 x 25 cm

Crítica – Alguns nomes novos

Mário Schenberg * —1969

Post - Eduardo - Bienal SPNos últimos dois anos numerosos jovens começaram a se destacar em vários centros do país. Muitos expõem na IX Bienal: Avatar de Morais, Eduardo de Paula (pintura ao lado, uma de quatro), Regina Vater, João Parisi, Vitor Décio Gherard, Aldyr Mendes de Souza, Ernesto Quissak, Vera Barcelos, Sonia Castro, Emanuel de Araújo, Bernardo Caro, Lourdes de Amorim Cedran, Guariglia, Celso Arcangelo, Érika Steinberger, Waldomiro de Deus Souza, Eckenberger, Laura Beatrice Leite, etc.

Avatar de Morais e Vera Barcelos são gaúchos. Avatar tem construído objetos sutis, extremamente sugestivos e bem estruturados. Vera é uma gravadora de grande talento.

João Parisi e Érika Steinberger foram premiados na I Bienal Nacional de Artes Plásticas de Salvador. Parisi vem se revelando um dos desenhistas mais poderosos do novo realismo, com alguma afinidade com o pop. Érika Steinberger constrói objetos-esculturas de uma poesia contagiante com ferro velho, flores de plástico etc. Ambos são de São Paulo, assim como Aldyr Mendes de Souza. Aldyr, jovem cirugião plástico, tem feito pinturas, objetos, esculturas, desenhos etc, frequentemente com temas astronáuticos e de science fiction. Alguns de seus trabalhos são inspirados por temas de medicina espacial.

Ernesto Quissak foi uma revolução da VIII Bienal. Sua pintura atual tem um interesse especial. Reside em Guaratinguetá, Estado de São Paulo. Bernardo Caro e Lourdes de Amorim Cedran são de Campinas. Bernardo Caro expõe na IX Bienal uma série de gravuras que lhe dão posição destacada no novo realismo. Lourdes de Amorim Cedran expõe na IX Bienal uma série de caixas-esculturas de formas variáveis, revelando um sentimento autêntico das estruturas primárias.

Regina Vater e Vitor Décio Gherard são da Guanabara, Gherard é gravador e pintor de tendências afins às da nova objetividade, com muita personalidade. Expõe na IX Bienal uma série de desenhos e pintura de considerável originalidade. Waldomiro de Deus Souza é um pintor popular autodidata de São Paulo que se tornou conhecido por seus quadros com escritura sobre astronaves. Expõe na IX Bienal telas com temas militares.

Eduardo de Paula é o mais destacado dos jovens artistas mineiros. Apresenta na IX Bienal uma arte de pinturas notáveis de tendência aparentada com o hard edge anglo-saxão.

Guariglia e Celso Arcângelo são de São Paulo, assim como a desenhista Laura Beatrice Leite. Laura expõe agora desenhos com inúmeras e pequenas figuras emaranhadas, de muita comunicação e originalidade. Guariglia apresenta na IX Bienal uma série belíssima de pesquisas de vários tipos, que lhe conferem uma posição de destaque excepcional entre os jovens artistas paulistanos. Celso Arcângelo é um pioneiro da pintura sobre superfícies curvas no Brasil. Seus trabalhos na IX Bienal são relacionados com pesquisas internacionais de vanguarda.

Sonia Castro e Emanuel de Araújo, da Bahia, revelam grandes possibilidades. Emanuel é um mestre da xilogravura em ceras. Sonia se afirma como uma gravadora de muita potência dramática, com um admirável senso espacial, nos seus trabalhos da IX Bienal. Eckenberger, um artista argentino residente em Salvador, expõe quadros objetos de grande interesse.

Marcelo Nitsche surge como a figura mais poderosa da escultura objetista de tendência pop de São Paulo. Apresenta na IX Bienal uma série variada de pesquisas.

A representação brasileira na IX Bienal dá uma imagem impressionante da vitalidade do movimento artístico atual. Reflete corretamente o desenvolvimento das novas tendências realistas, que passaram a predominar nos últimos anos, assim como das demais posições de vanguarda.

Nas Bienais anteriores, as esculturas e os objetos eram pouco numerosos, e em geral de qualidade discutível. Agora essa situação deixou de existir. Os objetos e as esculturas são abundantes e, frequentemente, de nível internacional. Isso se relaciona com o aumento considerável das pesquisas de vários tipos. Há, porém, pouca pesquisa de estruturas de arte cinética e de arte psicodélica.

* Físico, político e crítico de arte (* 02.07.1914 †10.11.1990).

Post pint 5

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 80 x 80 cm

Crítica – Rigor e sensibilidade

Márcio Sampaio *

Eduardo de Paula pertence à geração de artistas de Belo Horizonte que, no início dos anos 60, se dispuseram a avançar no projeto de modernização e atualização da arte, iniciado por Guignard.

Desde o princípio de sua carreira, Eduardo de Paula interessou-se pelos conceitos construtivistas. Recebendo ainda reflexos da pintura e do desenho de Paul Klee, estabeleceu um caminho próprio, que passaria por Mondrian e tangenciaria o suprematismo e o construtivismo russo.

Construindo um modo próprio de trabalhar a forma concreta, tomou a geometria veículo da expressão que não descartaria o dado da singularidade e o caráter pessoal, como propunha o neoconcretismo.

Nesse primeiro momento, Eduardo de Paula pinta Ouro Preto segundo uma perspectiva construtivista, usando fortes estruturas negras (que seccionam e decompõem os objetos) sobre as quais semeia cores neutras, resultando uma paisagem nova, sintética, quase abstrata – bem diferente das paisagens convencionais.

Post - repro livroNessas obras, ele inventa um jogo de formas, em que entram componentes gráficos, letras e números, lançados no espaço geométrico, como recurso expressivo da composição. Mais tarde, encaminhando-se para a abstração, haveria de desenvolver uma extensa série de pinturas compostas com rigor de geômetra, nas quais o trato preciso da cor e as simulações de transparências (obtidas pela sobreposição de plano) criam planos e volumes que flutuam no espaço.

Mas sua pintura não desobjetualiza o mundo; ao contrário, representa formas da realidade, recortadas da experiência concreta, não representativas, mas referenciais a elas. É uma reinvenção poética das coisas. O ponto de partida é uma dobradura: cata-vento, pipa, caixa (imagens propulsoras de emoções, reflexos elaborados da experiência da infância), ou sólidos geométricos modulares lançados no espaço em diferentes posições e pontos de vista simultâneos. Nessas composições, a cor, trabalhada com refinamento se mantém como protagonista da operação formal. Essas obras projetaram-se em uma notável produção do artista na área do design gráfico: cartazes, capas de livros, ilustrações, logomarcas, etc.

Estudos 2

Pintura: três estudos.

Por algum tempo, Eduardo de Paula retomou o veio da figuração, realizando a síntese de toda a experiência anterior. O tema – a natureza morta – seria, então, mero pretexto para o exercício de redimensionamento do mundo, através de uma nova perspectiva. Liberando os objetos de qualquer conotação simbólica, decompõe suas formas em um processo de redução planar, promulgando a interação entre o orgânico e o geométrico.

Na retomada da abstração geométrica desses últimos anos, Eduardo absorve a tecnologia avançada, trabalhando seus projetos no computador(1). Entretanto, mesmo aí, não se curva à pressão neutralizante do elemento tecnológico. Ao contrário, suas obras apresentam, sob a aparência de rigor, um refinamento cromático e uma sutil intervenção orgânica, como assinatura do humano, resultado do prazer (diria: humor) lúdico de construir, fazendo a geometria render-se ao sensível, à poesia.

* Crítico de Arte, poeta e artista plástico.

(1) Observação do autor – A experiência com o computador foi efêmera, pois não se mostrou satisfatória. 

Post pint 6

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 80 x 80 cm

Post pint 8

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 80 x 80 cm

Exposição no 5° Festival de Inverno / Ouro Preto – Alguns nomes novos

Pierre Santos *

É interessante observar que, no plano regional, onde os artistas são por natureza figurativos, havendo neste setor toda uma tradição emotiva e expressionística, que vem desde o barroco até as mais recentes manifestações de vanguarda, a arte de Eduardo de Paula evolui de maneira marginal neste contexto. Realmente, o mineiro jamais fôra dado a soluções racionais geométricas em suas composições, donde serem raras as manifestações neste sentido; quando muito, se chega a conclusões abstratas, o faz através de um lírico informalismo, que mostra bem as inclinações emocionais do artista mineiro. Entretanto, no que pese esse isolacionismo estilístico, a arte de Eduardo surpreende-nos por suas qualidades, conseguindo, dentro de seu setor, algo de muito difícil: inovar. Difícil, porque o abstrato formal é um caminho bastante explorado internacionalmente, sobretudo considerada a criação da Op Art, mais particularmente, de Vasarely. Apesar disso, nosso artista logra dar-nos uma visão pessoal dentro dos limites do geometrismo artístico, setor em que representa, sozinho em nosso Estado, a vanguarda em suas manifestações formais, possivelmente, da optical art.

* Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte.

Post pint 9

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 25 x 25 cm          Técnica: tinta acrílica sobre tela. 25 x 25 cm

Crítica – Do estandarte à heráldica

Pierre Santos

Apresentação para mostra de inauguração da Galeria Fernando Paz, Belo Horizonte (MG), 25.11.1987

Esta mostra de Eduardo de Paula, onde estão reunidos seus mais recentes trabalhos, é uma das cinco individuais com que o “marchand” Fernando Paz inaugura as novas instalações da sua Galeria − uma casa de exposições, diga-se de passagem, do mais alto nível por sua amplitude e bom gosto.

É muito significativo que, para uma ocasião desta, Eduardo de Paula tenha sido lembrado: afinal, este neo-opista (talvez fosse melhor dizer neo-construtivista, com base na disposição geral de se repensar a arte moderna) é um dos artistas mais sérios e constantes, estilisticamente falando, dentro do panorama apresentado pelas artes mineiras.

O sortilégio envolvente destas pinturas, que nos obriga a dialogar, a cada unidade, com a riqueza expressiva de suas cores, consiste numa linguagem que apela, gestalticamente, ao racional e ao emocional que há em nós, resultando por isso mesmo fluente a comunicação entre nossa sensibilidade e a magia dos quadros.

Uma rápida referência aos recursos plásticos, os quais o artista vem conquistando ao longo das quatro principais fazes de sua pintura, ajuda-nos a esclarecer o aparente mistério de suas soluções composicionais e técnicas. Ao definir seu caminho, por volta dos anos sessenta (embora seu ingresso no métier datasse de bem antes), a Op-Art estava no auge e Vasarely pontificava. Mas, já desde as Post - Pint W Batistaprimeiras incursões no geometrismo, Eduardo de Paula tentava um passo importante, optando por uma pintura feita em zonas chapadas, simetricamente repetidas no eixo composicional, ou em respeito ao mesmo, e dispostas sobre fundo neutro, à maneira de estandartes. Num segundo instante, anulando o fundo neutro, multiplicou emblematicamente os campos chapados em cores variadas, mas harmônicas, preenchendo com elas a totalidade da superfície que, em geral, também cresceu. Em seguida, entregou-se à pesquisa do volume (aliás, já insinuado antes), através de formatos geométricos idênticos, porém desencontrados em sua disposição; vêm dispostos de tal maneira que seu desdobramento, orientado segundo rigorosa simetria, modula o espaço em volumes. Estes avançam ou adentram na dimensão pictórica, à vontade de quem exercite o olho em face da composição, criando sensações visualmente lúdicas para o espectador. Houve quem disse, numa feliz imagem, que os quadros desta fase lembram rosáceas.

Agora, no apogeu da sua linguagem, Eduardo de Paula reúne nos quadros atuais toda a sua experiência plástica, laboriosa e pacientemente conseguida ao longo dos anos e anos de tentativas e depurações. Consciente de suas possibilidades, com total domínio da forma e profundo conhecimento da cor, mostra-nos uma série de pinturas, onde a segurança e a calma são a tônica. Viajando, de alto a baixo, pelas infindáveis ramificações da escala cromática e sem mais precisar da só repetição de formatos geométricos para criar o volume, leva as cores ao limite de suas tonalidades, forçando-as à transparência em veladuras múltiplas. Tal recurso estabelece, para nossa visão, uma profundidade mágica, heraldicamente simbólica.

Aí, portanto, estão os quadros e, neles, um dos mais dignos exemplos de dedicação, persistência e labor de nossa arte, qualidades estas que lograram − e só com elas isto seria possível − o estabelecimento de um estilo que se impõe à nossa admiração.

Post pint 10

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 25 x 25 cm         Técnica: tinta acrílica sobre tela. 25 x 25 cm 

Post - Ed _ XXIII SlNotícia e crítica – Salão Mineiro

Walmir Ayala *

Uma comissão julgadora, composta por Morgan Mota, Donato Ferrari, Jaime Maurício e o redator desta coluna (Walmir Ayala) […] selecionou e premiou as obras concorrentes ao XXIII Salão Municipal de Belas-Artes da Prefeitura de Belo Horizonte…

O primeiro prêmio de pintura (esquerda:1,00×0,80m) coube a Eduardo de Paula, jovem artista de Belo Horizonte, há muitos anos elaborando sobre o abstracionismo geométrico, agora adotando soluções nitidamente op. Excelente artesão, construtor matemático de formas fundamentadas nas regras essenciais que regem a própria natureza, provando pelo domínio das equações de toda forma viva a utilidade dessas formas, mesmo quando reduzidas ao simples e aparentemente limitado âmbito de suas vértebras. Um jovem artista que o Rio precisa conhecer com urgência. — Jornal do Brasil, 05.12.1968

* Poeta, jornalista e crítico de arte.

Estudos 1

Pintura: três estudos.

Desenho gráfico  Suplemento literário

Em 1966, Murilo Rubião foi encarregado de organizar o Suplemento Literário do Minas Gerais, como seu secretário. Lançou-se o primeiro número em 03.08.1966, distribuído em forma de encarte das edições de sábado do Diário Oficial do Estado. O projeto gráfico e as capas, dos primeiros tempos, são de autoria de Eduardo de Paula. Além de publicar textos narrativos, poéticos e ensaios literários, o suplemento abriu-se para o diálogo com o teatro, o cinema, as artes plásticas, a história, etc. A publicação teve marcante repercussão no meio cultural brasileiro.

Post Alphonsus & Lúcio

Capas de Eduardo de Paula: edições em homenagem Alphonsus de Guimaraens e Lúcio Cardoso.

Post M Campos & Rosa

Capas de Eduardo de Paula: edições em homenagem a Milton Campos e Guimarães Rosa.

Desenho gráfico Revista Barroco

A revista criada em 1969, pelo poeta e ensaísta mineiro Affonso Ávila era dedicada à divulgação de estudos das artes plásticas, arquitetura, música e literatura do período barroco. O projeto gráfico da maioria das edições é de Eduardo de Paula.

Post Barroco revista

Capas de Eduardo de Paula: revista “Barroco”.

Post Drummond

Aplauso do poeta Carlos Drummond de Andrade, pelo projeto gráfico de um álbum de gravuras.

Desenho gráfico Diversos

Trabalho que muito atraiu Eduardo de Paula foi a criação de capas, para as mais variadas publicações. Na década de 1960 e 70, a carência de recursos técnicos nas gráficas era corriqueira. Diante disso, o artista teve que aceitar o desafio e aprender a lidar com o menos fazendo o mais, quando ainda não existiam as ferramentas facilitadoras do computador. Além disso, os custos muito altos eram fatores que limitavam a liberdade de criação de qualquer impresso. Era usual nas encomendas, estipular o número máximo de cores, a qualidade do papel e o tipo de acabamento.

Capas de livros

Post livros 1

No caminho da simplicidade, o capista partiu sempre do princípio de que menos é mais. 

Post livros 2

Primeira capa: um tema concreto; segunda e terceira capas, temas abstratos.

Post livros 3

Primeira capa: barroco, mas com simplicidade. Segunda e terceira capa: sutilezas da forma. 

Post livros 4

“Morro do Querosene”, uma das primeiras capas, realizada com parcos recursos de gráfica.

Outra especialidade praticada largamente foi a criação de marcas e logotipos, também desafios à síntese e ao despojamento formal.

Post Duas marcas

Marcas: Organização dos Aposentados e Pensionistas da UFMG. / Centro Especializado de Urologia.Post livros 5

Ao centro, capa elaborada em 1994, impressa com melhores recursos de gráfica.

———

Nome artístico: Eduardo de Paula — Eduardo Vianna de Paula Filho, natural de Belo Horizonte, *19.07.1937 // Estudos: Escola de Belas-Artes de Belo Horizonte (Escola Guignard); Curso de litografia com João Garboginni Quaglia; Curso de gravura com Anna Letycia.

Anúncios

22 opiniões sobre “OBRA ARTÍSTICA

  1. Nossa, que artista maravilhoso você! Adorei! Trabalhei toda a minha vida como historiadora ao lado de Affonso Ávila e só agora vi a capa da Revista Barroco (agora com a Cristina Ávila) e também de Resíduos Seiscentistas em Minas Gerais, idealizadas por você.
    São inconfundíveis! Além de tudo, é um pesquisador fabuloso! É um prazer me corresponder com você! Um grande abraço,
    Juscelina

    • Maria Juscelina:
      Meus cabelos brancos disseram-me que chegou a hora de mostrar o que fiz, na minha passagem por esse mundo. Você está dizendo que gostou e espero não ter decepcionado os demais. Agradeço seu comentário e seu carinho.
      Um abraço do Eduardo.

  2. Belíssimo “Blog”, Eduardo!
    Mais uma vez, somos brindados
    com o seu talento e sua arte!
    E temos o privilégio de conhecer
    melhor a trajetória do grande
    artista.
    Abraços de Ivana.

    • Ivana:
      Muito obrigado pelas palavras gentis e o grande estímulo. Você está dando-me fôlego para continuar.
      Um abraço do Eduardo.

  3. Que beleza, rapaz. Admirável trabalho artístico, muito merecedor dos prêmios e da apreciação de Drummond. Alegro-me de conhecer sua obra. Sinto-me privilegiada!
    Abraços, Virgínia Abreu de Paula (Montes Claros)

    • Prezada Virgínia:
      Da mesma forma, o autor aqui sente-se privilegiado de ter uma leitora categorizada como você.
      Muito obrigado pelo comentário.
      Um abraço do Eduardo.

  4. Olá Eduardo!
    É com muita alegria que vejo suas imagens gráficas e pictóricas de novo, juntas. Quanto mais passa o tempo, mais reconheço o quanto suas imagens e seu universo artístico enriqueceram a arte neste país. E, com muita gratidão, reconheço também o quanto você foi importante na minha formação artística, enquanto sua aluna e, posteriormente, sua colega de departamento na EBA / UFMG. Sua postura ética e sua retidão de caráter, como professor e como pessoa, estarão sempre refletidas na clareza e na firmeza de sua geometria e na harmonia de suas cores.
    Um grande abraço da
    Rosângela

    • Rosângela:
      Um elogio como este é para se guardar na minha caixa de memórias. Diante das suas palavras, acho que tudo valeu a pena. Fico muito agradecido a você. Um abraço do Eduardo

  5. Professor, a Net permite ações impensáveis em outras épocas. Por exemplo, o ato de eu, neste momento, contactar o autor de obra no instante em que o conheço quanto a seu trabalho. Não seria legítimo um elogio meu frente às palavras apresentadas anteriormente. Gostaria de compartilhar com o senhor o fato de trabalhar atualmente na construção de uma tese de doutorado. Comentarei, de modo breve, a capa elaborada pelo senhor para a revista Barroco a fim de, por analogia, legitimar uma leitura para capa de antologia gregoriana. Espero, ao ver meus cabelos ficarem brancos, poder ter o que apresentar tão honrosa e inspiradoramente quanto o senhor prova ter ao praticar a generosidade de publicar as informações acima. Não um elogio, mas um agradecimento pela publicação, eu deixo. Atenciosamente, Ciro Soares (UFRN).

    • Prezado Ciro:
      Fico feliz ao receber seu comentário. Nessa oportunidade em que faço esse pequeno retrospecto do meu trabalho artístico, suas palavras são para mim uma recompensa. Felicidades na sua tese. Muito obrigado, Eduardo.

  6. Eduardo,
    Sou graduanda em conservação e restauração e gostaria de lhe contactar, fazer algumas perguntas a respeito de técnicas de pintura de artistas modernistas.
    Apreciei muito o que li no seu blog.
    Meu email para contato é tlowande22@hotmail.com
    Atenciosamente

    • Tamires:
      Terei muito prazer em conversar com você. Vou lhe enviar uma mensagem por email.
      Cordialmente, Eduardo.

  7. Eduardo:
    O que me fascina nas suas postagens é, principalmente, a riqueza de detalhes. Na atual, podemos apreciar sua criação artística: quadros, logos e capas de revistas. Podemos ler as críticas sobre seu belo trabalho (amei sua pintura!). Podemos conhecer sua trajetória, premiações, e, ainda, nos emocionar com a carta de Drummond.
    Para completar, saber de você por você mesmo, no seu estilo saboroso e único. Além do mais, não se esquece de relembrar pessoas, de reverenciar todos aqueles que lhe deram a mão.
    No encontro com Guignard pude ver a cena que me fez rir. Quase chorei ao ler sobre a “Alterosa”, rememorando quando meu pai fez a assinatura da revista, presenteando para minha irmã mais velha. Eu lia todos os números. Ainda temos alguns devidamente guardados.
    E o fogão Gardini? Meu pai comprou o nosso em 1955. Foi quando mudamos para a casa na Chacrinha. Tudo tinha de ser novo e, para tanto, a novidade maior do fogão elétrico! Só que atrasaram na entrega e continuamos no fogão à lenha por algum tempo. Que festa quando chegou… Esse fogão ainda existe, embora sem uso. Peça de museu.
    Estamos vivendo numa época onde tudo se copia na internet, com pressa, e vão repassado sem investigarem a veracidade. As informações chegam incompletas, não dão crédito aos autores ou colocam nomes errados. Que alívio e prazer ao ver os Blogs como os seus, com assuntos tão bons e com tais riquezas de detalhes. Agradeço-lhe muito por tudo isso.
    Um abraço da Virgínia Abreu de Paula – sertaneja.

    • Virgínia:
      Seu comentário deu-me grande alegria. Tanto que estou a publicá-lo na íntegra. Sua palavras servem de complemento ao que eu escrevi, porque nos remetem ao passado e ajudam a dar veracidade aos fatos.
      Gratíssimo, Eduardo de Paula.

  8. Boa tarde Eduardo de Paula,

    fiquei muito feliz em encontrar o seu blog na internet e poder contar com a possibilidade de entrar em contato com você e, claro, também poder elogiar o seu trabalho e trajetória como artista plástico mineiro.

    Atualmente, faço uma pós graduação em que pesquisa o Suplemento Literário do Minas Gerais (na UFMG) e gostaria muito de conversar com você sobre a sua participação no caderno de cultura. Seria, sem dúvida, de grande importância para mim e minha pesquisa um depoimento seu. Vou deixar o meu e-mail […], na esperança que possamos combinar um “dedo de prosa”.

    Um cordial abraço,
    Valdeci Cunha
    Belo Horizonte

  9. Eduardo,
    Chego com atraso até sua obra que me deixou encantada! As matérias sobre sua pintura foram uma lição para mim, apreciadora da arte figurativa – ninguém é perfeito… Suas composições geométricas às vezes parecem flutuar. Gostei muito das capas… aquela do livro de genética diz tudo!

    • Vania:
      Enxergamos porque existe figura e, também, fundo. O que comumente chamam de figurativo é aquilo que se parece como uma árvore, uma montanha, um pássaro, um rosto, etc. Você já viu figuras no microscópio? Você já viu estrelas, quando levou uma pancada na cabeça? Você gosta de estampado de bolinhas? São figuras…
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s