OBRA ARTÍSTICA

Depoimento do autor

Meu primeiro trabalho remunerado foi um desenho para a revista infantil Era Uma Vez, editada em Belo Horizonte. Pelas minhas lembranças deveria estar com uns 16 anos de idade. A publicação fora fundada, em 1940, por Vicente Guimarães – o vovô Felício –, tio do escritor Guimarães Rosa. Tão logo entreguei meu trabalho, fiquei ansioso por vê-lo impresso. Assim, no dia aprazado para circular a revista, plantei-me cedo frente a uma banca de revistas.

Naqueles tempos de juventude, trocava ideias com o vizinho amigo Hélcio Mário Noguchi, que veio a tornar-se um ícone da criação publicitária brasileira. Devo a ele a indicação para meu primeiro emprego, na Publicidade Danilo Valle, aos 17 anos de idade, onde fui trabalhar como ilustrador e cartazista. Ali, aprendi os rudimentos do desenho publicitário e tive despertado o interesse pela arte de desenhar letras. No departamento de arte, criei anúncios para a imprensa, cartazes, etc.

Post - Ed por Wilde← Eduardo de Paula retratado por Wilde Lacerda, nos tempos da Escola Guignard (1959).

Entre os anos de 1949 e 1960, o Cine Grátis foi um dos mais concorridos divertimentos noturnos de Belo Horizonte. Um caminhão, equipado com um projetor, se deslocava para logradouros públicos, onde ocorriam sessões de cinema ao ar livre. O escurinho necessário era obtido cobrindo com sacos pretos as lâmpadas da iluminação pública. Alguns espectadores assistiam as sessões em pé, outros sentados no chão e, quem desejasse mais conforto, trazia um banquinho de casa.

O faturamento do Cine Grátis provinha de propagandas, exibidas durante os intervalos dos filmes. Nas telas daquele cinema de rua, foram apresentadas minhas artes publicitárias, que haviam sido transportadas para slides. Lembro-me de tê-las feito para vender fogões da marca Gardini, material esportivo das lojas Ranieri e guaraná Gato Preto.

Post - Cine & Revista

Caminhão do Cine Grátis e revista Era Uma Vez.

Decorrido algum tempo, o amigo Noguchi, que estava trabalhando na revista Alterosa, deixou o seu emprego. Então, naquela oportunidade, fui assumir o seu lugar, com as mesmas funções. Na Alterosa – de 1955 a 1960 –, exerci as funções de diagramador e ilustrador, onde fui ganhando experiência e afirmando-me profissionalmente.

Em 1957, Wilma Martins, então cursando a escolinha de Guignard, veio trabalhar como desenhista na Alterosa e fizemos amizade. Pois bem, durante nossas conversas, sugeriu-me que fizesse o mesmo curso que frequentava. Então, decidi procurar a Escola de Belas-Artes de Belo Horizonte – conhecida como Escola Guignard –, no mesmo ano de 1957. Com carinho, dizíamos Escolinha.

Ela ocupava parte de uma construção interrompida, as ruínas do Palácio das Artes. Lá cheguei dias após ter sido invadida e depredada pela polícia civil, quando também destruíram esculturas do professor Franz Weissmann. Junto à escola, instalaram uma delegacia. A cadeia ficava colada no ateliê de escultura, separada apenas por uma parede de tijolos. Transtornado diante de tais fatos, o renomado artista se revoltou, de modo a abandonar Belo Horizonte e seus alunos.

Post - Escolinha _ entrada & escultura

Ruínas do Palácio das Artes // Primeira foto: Janelas gradeadas da delegacia e cadeia (esquerda). Escada de acesso ao segundo piso da escolinha Guignard. / Segunda foto: no térreo, sala de escultura, colada à cadeia. Ficava alagada na época das chuvas. (Fotos: Eugênio Silva, revista “O Cruzeiro”)

Apesar de tudo, permaneceram em funcionamento os cursos de desenho, xilogravura, pintura e escultura, na metade do espaço disponível. Na ala ocupada pela polícia, havia celas para detentos e os víamos através das grades. Trocávamos cumprimentos e, às vezes, lhes fazíamos algum agrado. Por parte deles, apelando à nossa generosidade, algum pedido sempre ocorria e nunca deixamos de atendê-los, na medida do possível.

No momento em que decidi-me a matricular na escola, tinha uns 20 anos de idade. Por sorte, pude ser recepcionado pelo seu fundador Alberto da Veiga Guignard – pintor e professor. Lembro-me que, naquele dia, o mestre trajava terno de linho branco, impecavelmente limpo e engomado. De pronto, acolheu-me com sorrisos e amabilidades. A primeira, ao oferecer-me um tamborete para sentar, mas que estava sujo de tinta fresca. Meu anfitrião também notara isso e, tomando um pedaço de pano, mais sujo ainda, esfregou-o sobre o assento. A boa intenção conseguiu apenas espalhar a sujeira.

Assim mesmo, diante de tanta gentileza, nem pestanejei e acomodei-me no tamborete. Então, prosseguimos em nosso diálogo, de minha parte sem conseguir disfarçar constrangimento, frente a pessoa tão importante. Seja lá como for, fui arrebatado pelas palavras do mestre, tanto durante as boas-vindas, quanto nos posteriores contatos. Em grande parte devo a Guignard ter descoberto o meu correto caminho.

Post Objeto← Objeto: experiência com a forma tridimensional. 

Logo após a matrícula, passei a frequentar as aulas. Os cursos eram livres e havia total abertura, de modo que o aluno pudesse decidir qual rumo tomar, ou seja, aquele que lhe parecesse mais interessante, sem peias e qualquer rigidez curricular. Naquele “paraíso”, tanto professores, quanto alunos mais experientes, exerciam a tarefa de ensinar. Tudo era muito informal e preconceitos artísticos, se existiam, eram poucos.

De ex-alunos, recebi influências valiosas, ajudando-me a descobrir a especialidade à qual deveria dedicar-me. Cito alguns deles, os quais já estavam lecionando: Maria Helena Andrés, Jefferson Lodi, Yara Tupinambá, Wilde Lacerda, Gavino Mudado Filho e Vicente de Abreu. Preciso ressaltar: na escolinha de Guignard assisti minha primeira aula de História da Arte. Até então, ignorava como a sabedoria do passado é importante na formação do artista. Foi um choque!

Dentre outros, tive como colegas Wilma Martins, Jarbas Juarez, Álvaro Apocalypse, Chanina Szejnbejn. O mais afim foi Jarbas Juarez, a quem logo encaminhei para trabalhar na revista Alterosa. Quando o conheci, padecia como funcionário da contabilidade do banco Mercantil, cuja atividade era completamente adversa ao seu temperamento e vocação.

Foi dessa maneira que minha passagem pela Escola Guignard tornou-se preciosa, influenciando positivamente meu desenvolvimento profissional. Além do mais, devo dizer, as boas convivências acrescentaram alegrias em minha vida. Todos os sábados havia festas de confraternização, promovidas pelo diretório acadêmico. — Eduardo de Paula* 

* Eduardo Vianna de Paula Filho, natural de Belo Horizonte, 19.07.1937.

Post - pint 14

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 1,20 x 1,20 m            Técnica: tinta acrílica sobre tela. 25 x 25 cm

Targetória – Artista Plástico e professor

Na universidade — Professor de desenho, pintura, graphic design e cor, atuando tanto na graduação, quanto na extensão. Também exercendo funções administrativas, participando de conselhos superiores, de bancas examinadoras e júris. Um dos fundadores do Festival de Inverno da UFMG. Docente na UFMG* e na Universidade Mineira de Arte, lecionando por mais de duas décadas e meia. Na UFMG: de 1967 a 1992, aposentado no nível de adjunto IV. — * Universidade Federal de Minas Gerais.

Post - Pint 13

21º Salão Municipal de Belas-Artes (1966): Adquirido pela UFMG. Tinta acrílica sobre tela: 1,31 x 1,31 m

Atividades como artista plástico: exposições individuais e coletivas; participações em concursos, salões e no Festival de Inverno de Ouro Preto. Principais prêmios:

20º Salão Municipal de Belas-Artes (Belo Horizonte): 2º Prêmio em Pintura (1965) — 3º Salão de Arte Moderna do Distrito Federal: Referência Especial do Júri, em Pintura (1966) — 21º Salão Municipal de Belas-Artes (Belo Horizonte): Grande Prêmio de Viagem aos Estados Unidos, em Pintura (1966) — 21º Salão Municipal de Belas-Artes (Belo Horizonte): Prêmio Hotel Del Rey, em Pintura (1966) — 9ª Bienal de São Paulo: Prêmio Hidrominas (Melhor Artista Mineiro), em Pintura (1966) — 23º Salão Municipal de Belas-Artes (Belo Horizonte): 1º Prêmio em Pintura (1968).

Post - pint 12

21º Salão Municipal de Belas-Artes (1966): Grande prêmio de viagem aos Estados Unidos. 1,31×1,31 m

Minha técnica

Ainda iniciante, numa época em que ainda usavam as técnicas tradicionais da pintura a óleo, fiz várias experimentações em busca de algo que parecia-me novo. Até que conheci as tintas acrílicas, récem-chegadas ao Brasil (década de 1960), mas que não podiam ser manipuladas tal como a tinta a óleo. Investiguei o material e obtive resultados muito satisfatórios, de tal forma que não deixavam nada a dever à melhor técnica do óleo. Para os iniciantes, a técnica da acrílica ainda permanece desafiadora e enganosa.

Sempre perguntam-me se minha pintura é executada com o recurso da régua, compasso e instrumentos para curvas. Verdade é que as faço aplicando as tintas completamente à mão livre. Recorro apenas aos pincéis macios e redondos. Dispenso os pincéis chatos e trinchas, e também o aerógrafo.

Post pint 1

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 80 x 80 cm

Post pint 2

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 80 x 80 cm

Post pint 3

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 80 x 80 cm

Post pint 4

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 80 x 60 cm

Post pint 11

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 36 x 28 cm            Técnica: tinta acrílica sobre tela. 25 x 25 cm

Crítica – Alguns nomes novos

Por Mário Schenberg*, em 1969

Post - Eduardo - Bienal SPNos últimos dois anos numerosos jovens começaram a se destacar em vários centros do país. Muitos expõem na IX Bienal: Avatar de Morais, Eduardo de Paula (pintura ao lado, uma de quatro), Regina Vater, João Parisi, Vitor Décio Gherard, Aldyr Mendes de Souza, Ernesto Quissak, Vera Barcelos, Sonia Castro, Emanuel de Araújo, Bernardo Caro, Lourdes de Amorim Cedran, Guariglia, Celso Arcangelo, Érika Steinberger, Waldomiro de Deus Souza, Eckenberger, Laura Beatrice Leite, etc.

Avatar de Morais e Vera Barcelos são gaúchos. Avatar tem construído objetos sutis, extremamente sugestivos e bem estruturados. Vera é uma gravadora de grande talento.

João Parisi e Érika Steinberger foram premiados na I Bienal Nacional de Artes Plásticas de Salvador. Parisi vem se revelando um dos desenhistas mais poderosos do novo realismo, com alguma afinidade com o pop. Érika Steinberger constrói objetos-esculturas de uma poesia contagiante, com ferro velho, flores de plástico etc. Ambos são de São Paulo, assim como Aldyr Mendes de Souza. Aldyr, jovem cirurgião plástico, que tem feito pinturas, objetos, esculturas, desenhos, etc, frequentemente com temas astronáuticos e de science fiction. Alguns de seus trabalhos são inspirados por temas de medicina espacial.

Ernesto Quissak foi uma revolução da VIII Bienal. Sua pintura atual tem um interesse especial. Reside em Guaratinguetá, estado de São Paulo. Bernardo Caro e Lourdes de Amorim Cedran são de Campinas. Bernardo Caro expõe, na IX Bienal, uma série de gravuras que lhe dão posição destacada no novo realismo. Lourdes de Amorim Cedran expõe, na IX Bienal, uma série de caixas-esculturas de formas variáveis, revelando um sentimento autêntico das estruturas primárias.

Regina Vater e Vitor Décio Gherard são da Guanabara, Gherard é gravador e pintor de tendências afins às da nova objetividade, com muita personalidade. Expõe, na IX Bienal, uma série de desenhos e pinturas de considerável originalidade. Waldomiro de Deus Souza é um pintor popular autodidata de São Paulo que se tornou conhecido por seus quadros com escritura sobre astronaves. Expõe, na IX Bienal, telas com temas militares.

Eduardo de Paula é o mais destacado dos jovens artistas mineiros. Apresenta, na IX Bienal, uma arte de pinturas notáveis de tendência aparentada com o hard edge anglo-saxão.

Guariglia e Celso Arcângelo são de São Paulo, assim como a desenhista Laura Beatrice Leite. Laura expõe agora desenhos com inúmeras e pequenas figuras emaranhadas, de muita comunicação e originalidade. Guariglia apresenta, na IX Bienal, uma série belíssima de pesquisas de vários tipos, que lhe conferem uma posição de destaque excepcional entre os jovens artistas paulistanos. Celso Arcângelo é um pioneiro da pintura sobre superfícies curvas, no Brasil. Seus trabalhos, na IX Bienal, são relacionados com pesquisas internacionais de vanguarda.

Sonia Castro e Emanuel de Araújo, da Bahia, revelam grandes possibilidades. Emanuel é um mestre da xilogravura em cores. Sonia se afirma como uma gravadora de muita potência dramática, com um admirável senso espacial, nos seus trabalhos da IX Bienal. Eckenberger, um artista argentino residente em Salvador, expõe quadros objetos de grande interesse.

Marcelo Nitsche surge como a figura mais poderosa da escultura objetista de tendência pop de São Paulo. Apresenta, na IX Bienal, uma série variada de pesquisas.

A representação brasileira, na IX Bienal, dá uma imagem impressionante da vitalidade do movimento artístico atual. Reflete corretamente o desenvolvimento das novas tendências realistas, que passaram a predominar nos últimos anos, assim como das demais posições de vanguarda.

Nas Bienais anteriores, as esculturas e os objetos eram pouco numerosos e, em geral, de qualidade discutível. Agora, essa situação deixou de existir. Os objetos e as esculturas são abundantes e, frequentemente, de nível internacional. Isso se relaciona com o aumento considerável das pesquisas de vários tipos. Há, porém, pouca pesquisa de estruturas de arte cinética e de arte psicodélica.

* Físico, político e crítico de arte (* 02.07.1914 †10.11.1990).

Post pint 5

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 80 x 80 cm

Crítica – Rigor e sensibilidade

Por Márcio Sampaio *

Eduardo de Paula pertence à geração de artistas de Belo Horizonte que, no início dos anos 60, se dispuseram a avançar no projeto de modernização e atualização da arte iniciado por Guignard.

Desde o princípio de sua carreira, Eduardo de Paula interessou-se pelos conceitos construtivistas. Recebendo ainda reflexos da pintura e do desenho de Paul Klee, estabeleceu um caminho próprio, que passaria por Mondrian e tangenciaria o suprematismo, e o construtivismo russo.

Construindo um modo próprio de trabalhar a forma concreta, tornou a geometria veículo da expressão, que não descartaria o dado da singularidade e o caráter pessoal, como propunha o neoconcretismo. Nesse primeiro momento, Eduardo de Paula pinta Ouro Preto segundo uma perspectiva construtivista, usando fortes estruturas negras (que seccionam e decompõem os objetos) sobre as quais semeia cores neutras, resultando numa paisagem nova, sintética, quase abstrata – bem diferente das paisagens convencionais.

Post - repro livroNessas obras, ele inventa um jogo de formas, em que entram componentes gráficos, letras e números, lançados no espaço geométrico, como recurso expressivo da composição.

Mais tarde, encaminhando-se para a abstração, haveria de desenvolver uma extensa série de pinturas, compostas com rigor de geômetra, nas quais o trato preciso da cor e as simulações de transparências (obtidas pela sobreposição de plano) criam planos e volumes que flutuam no espaço.

Mas sua pintura não desobjetualiza o mundo; ao contrário, representa formas da realidade, recortadas da experiência concreta, não representativas, mas referenciais a elas. É uma reinvenção poética das coisas. O ponto de partida é uma dobradura: cata-vento, pipa, caixa (imagens propulsoras de emoções, reflexos elaborados da experiência da infância), ou sólidos geométricos modulares, lançados no espaço em diferentes posições e pontos de vista simultâneos. Nessas composições, a cor, trabalhada com refinamento, se mantém como protagonista da operação formal. Essas obras projetaram-se em uma notável produção do artista na área do design gráfico: cartazes, capas de livros, ilustrações, logomarcas, etc.

Estudos 2

Pintura: três estudos.

Por algum tempo, Eduardo de Paula retomou o veio da figuração, realizando a síntese de toda a experiência anterior. O tema – a natureza morta – seria, então, mero pretexto para o exercício de redimensionamento do mundo, através de uma nova perspectiva. Liberando os objetos de qualquer conotação simbólica, decompõe suas formas em um processo de redução planar, promulgando a interação entre o orgânico e o geométrico.

Na retomada da abstração geométrica, desses últimos anos, Eduardo absorve a tecnologia avançada, trabalhando seus projetos no computador(1). Entretanto, mesmo aí, não se curva à pressão neutralizante do elemento tecnológico. Ao contrário, suas obras apresentam, sob a aparência de rigor, um refinamento cromático e uma sutil intervenção orgânica, como assinatura do humano, resultado do prazer (diria: humor) lúdico de construir, fazendo a geometria render-se ao sensível, à poesia.

* Crítico de Arte, poeta e artista plástico.

(1) Observação do autor – A experiência com o computador foi efêmera, pois não mostrou-se satisfatória.

1966 – Salão Municipal de Belas-Artes

Por Rodrigo VivasHistoriador de arte

O XXII Salão de Arte […] tem no seu corpo de jurados, Clarival do Prado Valladares, Mário Schenberg, Maristela Tristão e Pierre Santos. O grande prêmio é concedido a Tomie Ohtake, seguido de Ildeu Moreira e Roberto Newman. O prêmio mais representativo é conquistado por Eduardo de Paula, com uma viagem aos Estados Unidos, patrocinado pela Varig. O artista recebe ainda um prêmio de aquisição […] oferecido pelo Hotel Del Rey. É o primeiro artista a conquistar dois prêmios em um único salão.

Post pint 6

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 80 x 80 cm

Post pint 8

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 80 x 80 cm

Exposição no 5° Festival de Inverno  – Exposição no Ouro Preto

Por Pierre Santos *

É interessante observar que, no plano regional, onde os artistas são por natureza figurativos, havendo neste setor toda uma tradição emotiva e expressionística, que vem desde o barroco até as mais recentes manifestações de vanguarda, a arte de Eduardo de Paula evolui de maneira marginal neste contexto. Realmente, o mineiro jamais fora dado a soluções racionais geométricas em suas composições, donde serem raras as manifestações neste sentido; quando muito, se chega a conclusões abstratas, o faz através de um lírico informalismo, que mostra bem as inclinações emocionais do artista mineiro.

Entretanto, no que pese esse isolacionismo estilístico, a arte de Eduardo surpreende-nos por suas qualidades, conseguindo, dentro de seu setor, algo de muito difícil: inovar. Difícil, porque o abstrato formal é um caminho bastante explorado internacionalmente, sobretudo considerada a criação da Op-Art, mais particularmente, de Vasarely. Apesar disso, nosso artista logra dar-nos uma visão pessoal dentro dos limites do geometrismo artístico, setor em que representa, sozinho em nosso Estado, a vanguarda em suas manifestações formais, possivelmente, da optical art.

* Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte.

Post pint 9

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 25 x 25 cm          Técnica: tinta acrílica sobre tela. 25 x 25 cm

Crítica – Do estandarte à heráldica

Por Pierre Santos

Para a inauguração da Galeria Fernando Paz, Belo Horizonte (MG), 25.11.1987

Esta mostra de Eduardo de Paula, onde estão reunidos seus mais recentes trabalhos, é uma das cinco individuais com que o marchand Fernando Paz inaugura as novas instalações da sua Galeria − uma casa de exposições, diga-se de passagem, do mais alto nível por sua amplitude e bom gosto.

É muito significativo que, para uma ocasião desta, Eduardo de Paula tenha sido lembrado: afinal, este neo-opista (talvez fosse melhor dizer neo-construtivista, com base na disposição geral de se repensar a arte moderna) é um dos artistas mais sérios e constantes, estilisticamente falando, dentro do panorama apresentado pelas artes mineiras.

O sortilégio envolvente destas pinturas, que nos obriga a dialogar, a cada unidade, com a riqueza expressiva de suas cores, consiste numa linguagem que apela, gestalticamente, ao racional e ao emocional que há em nós, resultando por isso mesmo fluente a comunicação entre nossa sensibilidade e a magia dos quadros.

Uma rápida referência aos recursos plásticos, os quais o artista vem conquistando ao longo das quatro principais fazes de sua pintura, ajuda-nos a esclarecer o aparente mistério de suas soluções composicionais e técnicas. Ao definir seu caminho, por volta dos anos sessenta (embora seu ingresso no métier datasse de bem antes), a Op-Art estava no auge e Vasarely pontificava. Mas, já desde as Post - Pint W Batistaprimeiras incursões no geometrismo, Eduardo de Paula tentava um passo importante, optando por uma pintura feita em zonas chapadas, simetricamente repetidas no eixo composicional, ou em respeito ao mesmo, e dispostas sobre fundo neutro, à maneira de estandartes.

Num segundo instante, anulando o fundo neutro, multiplicou emblematicamente os campos chapados em cores variadas, mas harmônicas, preenchendo com elas a totalidade da superfície que, em geral, também cresceu. Em seguida, entregou-se à pesquisa do volume (aliás, já insinuado antes), através de formatos geométricos idênticos, porém desencontrados em sua disposição; vêm dispostos de tal maneira que seu desdobramento, orientado segundo rigorosa simetria, modula o espaço em volumes. Estes avançam ou adentram na dimensão pictórica, à vontade de quem exercite o olho em face da composição, criando sensações visualmente lúdicas para o espectador. Houve quem disse, numa feliz imagem, que os quadros desta fase lembram rosáceas.

Agora, no apogeu da sua linguagem, Eduardo de Paula reúne nos quadros atuais toda a sua experiência plástica, laboriosa e pacientemente conseguida ao longo dos anos e anos de tentativas e depurações. Consciente de suas possibilidades, com total domínio da forma e profundo conhecimento da cor, mostra-nos uma série de pinturas, onde a segurança e a calma são a tônica.

Viajando, de alto a baixo, pelas infindáveis ramificações da escala cromática e sem mais precisar da só repetição de formatos geométricos para criar o volume, leva as cores ao limite de suas tonalidades, forçando-as à transparência em veladuras múltiplas. Tal recurso estabelece, para nossa visão, uma profundidade mágica, heraldicamente simbólica.

Aí, portanto, estão os quadros e, neles, um dos mais dignos exemplos de dedicação, persistência e labor de nossa arte, qualidades estas que lograram − e só com elas isto seria possível − o estabelecimento de um estilo que se impõe à nossa admiração.

Post pint 10

Técnica: tinta acrílica sobre tela. 25 x 25 cm         Técnica: tinta acrílica sobre tela. 25 x 25 cm 

Post - Ed _ XXIII SlNotícia e crítica – Salão Mineiro

Por Walmir Ayala *

Uma comissão julgadora, composta por Morgan Mota, Donato Ferrari, Jaime Maurício e o redator desta coluna (Walmir Ayala) […] selecionou e premiou as obras concorrentes ao XXIII Salão Municipal de Belas-Artes da Prefeitura de Belo Horizonte […]

O primeiro prêmio de pintura (esquerda:1,00×0,80m) coube a Eduardo de Paula, jovem artista de Belo Horizonte, há muitos anos elaborando sobre o abstracionismo geométrico, agora adotando soluções nitidamente op. Excelente artesão, construtor matemático de formas fundamentadas nas regras essenciais que regem a própria natureza, provando pelo domínio das equações de toda forma viva a utilidade dessas formas, mesmo quando reduzidas ao simples e aparentemente limitado âmbito de suas vértebras. Um jovem artista que o Rio precisa conhecer com urgência. — Jornal do Brasil, 05.12.1968

* Poeta, poeta e crítico de arte.

Estudos 1

Pintura: três estudos.

Graphic design  Suplemento literário

Em 1966, Murilo Rubião foi encarregado de organizar o Suplemento Literário do Minas Gerais, como seu secretário. Lançou-se o primeiro número em 03.08.1966, distribuído em forma de encarte das edições de sábado do Diário Oficial do Estado. O projeto gráfico e as capas, dos primeiros tempos, são de autoria de Eduardo de Paula. Além de publicar textos narrativos, poéticos e ensaios literários, o Suplemento abriu-se para o diálogo com o teatro, o cinema, as artes plásticas, a história, etc. A publicação teve marcante repercussão no meio cultural brasileiro.

Post Alphonsus & Lúcio

Capas de Eduardo de Paula: edições em homenagem Alphonsus de Guimaraens e Lúcio Cardoso.

Post M Campos & Rosa

Capas de Eduardo de Paula: edições em homenagem a Milton Campos e Guimarães Rosa.

Graphic design Revista Barroco

A revista Barroco foi criada em 1969, pelo poeta e ensaísta mineiro Affonso Avila. Tinha como objetivo a divulgação de ensaios e pesquisas sobre artes plásticas, arquitetura, música e literatura do período barroco. O projeto gráfico da 1a à 9a edição, é de Eduardo de Paula.

Diz Cristina Avila, filha do fundador e historiadora: “A revista sempre foi ousada, não só pela qualidade de seus colaboradores como por sua excelência gráfica, que teve sua gênese nas mãos de Eduardo de Paula […]. Entre os aspectos que tornaram a revista Barroco agradável e ousada, estavam o formato, a organização dos artigos e as chamadas páginas amarelas, Revista Barroco que distinguiam por interesse e qualidade excepcional autores dos mais diversos campos de análise”.

Post Barroco revistaCapas de Eduardo de Paula: revista “Barroco”.

Post - DrummondAplauso do poeta Carlos Drummond de Andrade, pelo projeto gráfico de um álbum de gravuras.

Graphic design Símbolos

O autor dedicou-se à criação de símbolos – marcas e logotipos – para diversas finalidades. São desenhos que identificam uma organização ou um produto. Criações gráficas desse gênero são denominadas, especialmente nos países de língua inglesa, como trademarks.

Post Duas marcasMarcas: para a Organização dos Aposentados e Pensionistas da UFMG, e Centro Especializado de Urologia.

Graphic design Capas e cartazes

O autor produziu capas para variadas publicações e, também, cartazes. Especialmente nas décadas de 1960 e 70, quando os recursos de imprensa normalmente eram limitados. Por outro lado, os altos custos tolhiam a liberdade de criação. Mas essas dificuldades forçavam a lidar com o menos para fazer o mais, quando ainda não havia o auxilio do computador.

Capas de livros — 

Capas

Cartazes

In memoriam - 3. Salão“In Memoriam”, 1963 – Primeira peça de Flávio Márcio Salim (* 1945 / †1979). Jornalista, teatrólogo e publicitário. / Salão Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

4. Salão _ 10. FestivalSalão Universitário e Festival de Inverno da Universidade Federal de Minas Gerais. 

2. Jornada & GizJAM, Promoção Centro Pedagógico da UFMG. / GIZ, peça do teatro de bonecos Giramundo, Belo Horizonte

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Autor do site Sumidoiro’s Blog. Clique, com o botão direito e veja.

 

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22 opiniões sobre “OBRA ARTÍSTICA

  1. Nossa, que artista maravilhoso você! Adorei! Trabalhei toda a minha vida como historiadora ao lado de Affonso Ávila e só agora vi a capa da Revista Barroco (agora com a Cristina Ávila) e também de Resíduos Seiscentistas em Minas Gerais, idealizadas por você.
    São inconfundíveis! Além de tudo, é um pesquisador fabuloso! É um prazer me corresponder com você! Um grande abraço,
    Juscelina

    • Maria Juscelina:
      Meus cabelos brancos disseram-me que chegou a hora de mostrar o que fiz, na minha passagem por esse mundo. Você está dizendo que gostou e espero não ter decepcionado os demais. Agradeço seu comentário e seu carinho.
      Um abraço do Eduardo.

  2. Belíssimo “Blog”, Eduardo!
    Mais uma vez, somos brindados
    com o seu talento e sua arte!
    E temos o privilégio de conhecer
    melhor a trajetória do grande
    artista.
    Abraços de Ivana.

    • Ivana:
      Muito obrigado pelas palavras gentis e o grande estímulo. Você está dando-me fôlego para continuar.
      Um abraço do Eduardo.

  3. Que beleza, rapaz. Admirável trabalho artístico, muito merecedor dos prêmios e da apreciação de Drummond. Alegro-me de conhecer sua obra. Sinto-me privilegiada!
    Abraços, Virgínia Abreu de Paula (Montes Claros)

    • Prezada Virgínia:
      Da mesma forma, o autor aqui sente-se privilegiado de ter uma leitora categorizada como você.
      Muito obrigado pelo comentário.
      Um abraço do Eduardo.

  4. Olá Eduardo!
    É com muita alegria que vejo suas imagens gráficas e pictóricas de novo, juntas. Quanto mais passa o tempo, mais reconheço o quanto suas imagens e seu universo artístico enriqueceram a arte neste país. E, com muita gratidão, reconheço também o quanto você foi importante na minha formação artística, enquanto sua aluna e, posteriormente, sua colega de departamento na EBA / UFMG. Sua postura ética e sua retidão de caráter, como professor e como pessoa, estarão sempre refletidas na clareza e na firmeza de sua geometria e na harmonia de suas cores.
    Um grande abraço da
    Rosângela

    • Rosângela:
      Um elogio como este é para se guardar na minha caixa de memórias. Diante das suas palavras, acho que tudo valeu a pena. Fico muito agradecido a você. Um abraço do Eduardo

  5. Professor, a Net permite ações impensáveis em outras épocas. Por exemplo, o ato de eu, neste momento, contactar o autor de obra no instante em que o conheço quanto a seu trabalho. Não seria legítimo um elogio meu frente às palavras apresentadas anteriormente. Gostaria de compartilhar com o senhor o fato de trabalhar atualmente na construção de uma tese de doutorado. Comentarei, de modo breve, a capa elaborada pelo senhor para a revista Barroco a fim de, por analogia, legitimar uma leitura para capa de antologia gregoriana. Espero, ao ver meus cabelos ficarem brancos, poder ter o que apresentar tão honrosa e inspiradoramente quanto o senhor prova ter ao praticar a generosidade de publicar as informações acima. Não um elogio, mas um agradecimento pela publicação, eu deixo. Atenciosamente, Ciro Soares (UFRN).

    • Prezado Ciro:
      Fico feliz ao receber seu comentário. Nessa oportunidade em que faço esse pequeno retrospecto do meu trabalho artístico, suas palavras são para mim uma recompensa. Felicidades na sua tese. Muito obrigado, Eduardo.

  6. Eduardo,
    Sou graduanda em conservação e restauração e gostaria de lhe contactar, fazer algumas perguntas a respeito de técnicas de pintura de artistas modernistas.
    Apreciei muito o que li no seu blog.
    Meu email para contato é tlowande22@hotmail.com
    Atenciosamente

    • Tamires:
      Terei muito prazer em conversar com você. Vou lhe enviar uma mensagem por email.
      Cordialmente, Eduardo.

  7. Eduardo:
    O que me fascina nas suas postagens é, principalmente, a riqueza de detalhes. Na atual, podemos apreciar sua criação artística: quadros, logos e capas de revistas. Podemos ler as críticas sobre seu belo trabalho (amei sua pintura!). Podemos conhecer sua trajetória, premiações, e, ainda, nos emocionar com a carta de Drummond.
    Para completar, saber de você por você mesmo, no seu estilo saboroso e único. Além do mais, não se esquece de relembrar pessoas, de reverenciar todos aqueles que lhe deram a mão.
    No encontro com Guignard pude ver a cena que me fez rir. Quase chorei ao ler sobre a “Alterosa”, rememorando quando meu pai fez a assinatura da revista, presenteando para minha irmã mais velha. Eu lia todos os números. Ainda temos alguns devidamente guardados.
    E o fogão Gardini? Meu pai comprou o nosso em 1955. Foi quando mudamos para a casa na Chacrinha. Tudo tinha de ser novo e, para tanto, a novidade maior do fogão elétrico! Só que atrasaram na entrega e continuamos no fogão à lenha por algum tempo. Que festa quando chegou… Esse fogão ainda existe, embora sem uso. Peça de museu.
    Estamos vivendo numa época onde tudo se copia na internet, com pressa, e vão repassado sem investigarem a veracidade. As informações chegam incompletas, não dão crédito aos autores ou colocam nomes errados. Que alívio e prazer ao ver os Blogs como os seus, com assuntos tão bons e com tais riquezas de detalhes. Agradeço-lhe muito por tudo isso.
    Um abraço da Virgínia Abreu de Paula – sertaneja.

    • Virgínia:
      Seu comentário deu-me grande alegria. Tanto que estou a publicá-lo na íntegra. Sua palavras servem de complemento ao que eu escrevi, porque nos remetem ao passado e ajudam a dar veracidade aos fatos.
      Gratíssimo, Eduardo de Paula.

  8. Boa tarde Eduardo de Paula,

    fiquei muito feliz em encontrar o seu blog na internet e poder contar com a possibilidade de entrar em contato com você e, claro, também poder elogiar o seu trabalho e trajetória como artista plástico mineiro.

    Atualmente, faço uma pós graduação em que pesquisa o Suplemento Literário do Minas Gerais (na UFMG) e gostaria muito de conversar com você sobre a sua participação no caderno de cultura. Seria, sem dúvida, de grande importância para mim e minha pesquisa um depoimento seu. Vou deixar o meu e-mail […], na esperança que possamos combinar um “dedo de prosa”.

    Um cordial abraço,
    Valdeci Cunha
    Belo Horizonte

  9. Eduardo,
    Chego com atraso até sua obra que me deixou encantada! As matérias sobre sua pintura foram uma lição para mim, apreciadora da arte figurativa – ninguém é perfeito… Suas composições geométricas às vezes parecem flutuar. Gostei muito das capas… aquela do livro de genética diz tudo!

    • Vania:
      Enxergamos porque existe figura e, também, fundo. O que comumente chamam de figurativo é aquilo que se parece como uma árvore, uma montanha, um pássaro, um rosto, etc. Você já viu figuras no microscópio? Você já viu estrelas, quando levou uma pancada na cabeça? Você gosta de estampado de bolinhas? São figuras…
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

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